Para nós, a arqueologia é, mais que uma paixão, uma ciência viva. Estamos plenamente conscientes da sua importância para o conhecimento da Humanidade sobre si própria, bem como enquanto fornecedora de pistas e materiais para outras ciências, como a história ou antropologia. Mas, mais do que isso, a arqueologia é uma forma de darmos vida ao passado mais remoto, de trazermos os nossos antepassados perdidos para o presente.

Emocionamo-nos diariamente ao saber que pelas nossas mãos passam, e passarão, os fragmentos de vida que os nossos antepassados nos puderam legar, ainda que de forma inadvertida. Sem deixar de manter a racionalidade e o profissionalismo, sentimos pessoalmente as histórias que contam. É o caso do menino do Lapedo, encontrado perto de Leiria, em 1998: há quase 25.000 anos, um pai, ou uma mãe, ou uma família ou uma tribo inteira, choraram a perda da sua criança, ao ponto de lhe terem preparado um cuidadoso ritual fúnebre. É o caso também de “Ötzi”, a célebre múmia alpina encontrada em 1991 e que padeceu de uma forma tão violenta. Nem sequer se trata de um antepassado remoto; o seu vestuário e o seu calçado estavam tão bem adaptados ao frio dos Alpes, o corpo encontra-se tão bem conservado, que é difícil não pensar que é simplesmente uma pessoa como nós.

Queremos também transmitir, às pessoas e à sociedade em geral, esta mesma ideia: a arqueologia não é uma ciência de coisas mortas, um parente da ciência forense, nem um espelho dos filmes de Indiana Jones. Mesmo que um investigador afirme que o tesouro perdido dos Templários se encontra no subsolo do Mosteiro da Batalha; não pretendemos cavar um túnel, ilegalmente ou à maneira de Hollywood, para desenterrá-lo. Queremos revelar esta ideia simples: de que foram pessoas como nós que viveram em séculos e milénios anteriores, e que desvendar a sua humanidade faz muito pela nossa própria.