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Cada um tem o ABU SIMBEL que pode…

“Há cerca de cinquenta anos, o mundo foi atingido pela necessidade de transferir de local os monumentais templos egípcios de Abu Simbel, que, no caso contrário, iriam ficar submersos pelas águas da barragem de Assuão que nesse momento se construía, mas, apesar de uma mobilização de meios financeiros dotada de um volume sem quaisquer precedentes em matéria de defesa do património, discutiu-se o empobrecimento que iria resultar da sua desinserção na paisagem, e, por isso, foi feito um último esforço monetário de forma a que uma parte da montanha também fosse transferida.
 Abu Simbel constitui, sem qualquer dúvida e a todos os títulos, dos pontos mais altos da criação artística da História da Humanidade, mas, mesmo assim, considerou-se que essas magníficas e monumentais construções não deveriam ficar desenquadradas daquele que era o seu ambiente original.
 Vem isto a propósito de uma informação publicada no “Diário de Notícias” de 5/2/10, sobre uma denominada “recuperação da fonte de Santo António da Serra que irá passar pela sua deslocação para um nível cinco metros acima daquele que é o seu.
 Ora, a dita fonte não constitui nenhuma obra monumental, nem está dotada de esculturas de excepcional valor artístico ou qualquer coisa parecida, e, por isso, merece ser preservada enquanto tal, ou seja, como “fonte”, situada naquele preciso local e dotada daquela específica envolvência que fazem parte das suas características e traduzem a sua utilidade e importância no momento histórico em que foi construída.
 Poder-se-á dizer que a sua deslocação constitui um mal menor, mas, se continuarmos a darmo-nos por satisfeitos com réplicas e falsificações do passado, ou, na melhor das hipóteses, com simples amostras daquilo que tinha sido o testemunho que deveria ser preservado, sucederá que dentro em breve, pouco património ainda existirá e, com toda a franqueza, não se vê utilidade em “mumificar” uma fonte.
 Qualquer fragmento de Abu Simbel constitui um ponto alto da Arte, mas, mesmo assim, tentou-se aí preservar ao máximo os valores do conjunto, enquanto aqui a destruição desses valores nos é apresentada como sendo uma positiva acção em defesa do Património.
 Enfim, cada qual tem a defesa do património que pode…

Nota: Ao mesmo tempo que este texto fora escrito, foi publicado um comentário de Élvio Sousa, no jornal “Cidade” de 8/2/10, que merece total acordo.”

João Lizardo

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