
Foto: Teresa Gonçalves DN.
“Élvio sousa diz que não sonha em encontrar tesouros. A sua preocupação é preservar a História da Madeira que está escondida um pouco por toda a Região.
As peças têm de ser olhadas e estudadas com cuidado.
Uma peça de cerâmica do século XVI, embora partida e incompleta, pode contar ou ser peça de uma história. É isso que faz um arqueológo, diz Élvio Sousa.
Élvio sousa diz que não sonha em encontrar tesouros. A sua preocupação é preservar a História da Madeira que está escondida um pouco por toda a Região.
As peças têm de ser olhadas e estudadas com cuidado.
Élvio Sousa não sabe dizer ao certo quando se ‘apaixonou’ pela Arqueologia, mas hoje não se arrepende de ter seguido esta área da História e fala à MAIS do potencial arqueológico da Região.
Todas as crianças e muitos adultos sonham poder um dia encontrar um tesouro. Mas para alguns, o tesouro pode não ser uma arca qualquer cheia de ouro e jóias. Para alguns, o tesouro pode ser um ‘caco’, uma moeda de outras eras, um vestígio de uma civilização, de outros tempos. É exactamente isso que acontece com o arqueólogo Élvio Sousa.
Sem precisar o momento em que decidiu enveredar por esta ciência, porque sempre foi “um gosto”, Élvio Sousa, hoje mestre e doutor em História Regional e Local, admite que a vontade de procurar algo que está ‘escondido’ quase que faz parte do código genético do ser humano. “Tentar procurar qualquer coisa que não é visível, sobretudo algo que esteja enterrado ou debaixo de água, desperta curiosidade… Penso que toda a gente sonha em encontrar um tesouro. Essa faceta de encontrar um tesouro, seja ele motivado por uma lenda ou não, é sempre algo que acompanha o trabalho arqueológico, embora a arqueologia é uma actividade científica e construtora de conhecimento”, explica.
E é com este mote que nos mostra alguns objectos, que podem ser vistos por muitos como ‘velharias’ . Um pente feito em osso, que no século XVI era usado por homens ou mulheres, parte de uma bracelete feita em vidro colorido, a protecção da ponta de uma espada, um osso de onde eram ‘extraídos’ os botões usados em peças de vestuário, uma fivela de um sapato…
Todas estas peças mostram de alguma forma como viviam as pessoas naquelas épocas, como é que era o quotidiano das gentes, dos homens e mulheres que ajudaram a fazer da Madeira o que a Região é hoje. É isso que Élvio Sousa gosta de descobrir, um pouco como se fosse um detective da História, diz com um sorriso e um brilho no olhar. Quando os arqueólogos descobrem algo, tentam limpar e depois construir uma narrativa, algo que supostamente tenha acontecido, à volta da peça descoberta. “É tudo anacrónico”, admite. “Com estes objectos é possível construir vários tipos de histórias. Temos é de analisá-los na ‘cena do crime’…”
É o mesmo brilho dos olhos que sobressai quando fala em achados importantes, como uma noz de uma besta (arma de arremesso usada na época dos Descobrimentos). A peça encontrada na Madeira é a quarta descoberta em todo o país. “É um grande achado”, diz, a par e passo com cotas de malha, usadas como protecção de armas como espadas, punhais e adagas. “Isso mostra como as pessoas viviam na altura, porque ainda não havia armas de fogo e isso as fontes não falam”.

Foto: Teresa Gonçalves, DN.
São também objectos como estes que comprovam o potencial arqueológico da Região. A maior parte das pessoas até pode pensar que, por a Madeira ter sido ‘achada’ no princípio do século XV, não tem um valor tão elevado como o caso do Egipto, de Itália ou da Grécia, países com milhares de anos e de civilizações históricas. Mas afinal, a questão do valor, pelo menos em Arqueologia, não pode ser vista de uma forma tão simplista. “A Madeira era um campo geológico natural até ser pisada pelos portugueses”, recorda Élvio Sousa. É por isso que afirma sem qualquer hesitação que “a Região Autónoma da Madeira é um imenso campo arqueológico. Temos é de saber quais os sítios mais importantes para poder recolher esses arquivos da terra, que devem ser retirados e estudados para potenciar o conhecimento”.
Daí a necessidade de criar centros históricos e de fazer muita da chamada ‘Arqueologia Preventiva’. “Andamos a chamar a atenção para isso há mais de 15 anos”, diz o também responsável pelo Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea. Porém, o facto dos objectos de estudo desta ciência estarem ‘escondidos’, não facilita a sensibilização das entidades, das empresas e de quem tem responsabilidades, por exemplo em matéria de construção. E, garante, ainda há muito por descobrir. “Em cada esquina há um eventual sítio de interesse arqueológico. Caberá aos técnicos definir quais são e onde estão”, diz.
Mas os trabalhos arqueológicos não acontecem apenas por acaso. Há três lendas que suscitaram trabalhos na Região, já durante o século XIX. Uma delas está relacionada com a Capela dos Milagres, aquela que é entendida como a mais antiga edificação da Madeira, onde, segundo alguns documentos, Robert Paes, em 1840, terá encontrado a Cruz de Machim.
Também o alegado tesouro do Capitão da Kidd ou das Selvagens suscitou vários trabalhos arqueológicos. Um dos mais famosos aconteceu quando uma equipa inglesa, sem qualquer autorização, escavou grandes trincheiras nas ilhas, em busca do mítico tesouro.
Já mais recentemente, nos anos 70 do século passado, dois investigadores escavaram a Igreja da Madalena do Mar à procura de vestígios do rei polaco Ladislau III, que desapareceu na Batalha de Varna em 1444 e que, segundo a tradição oral, refugiou-se na Madeira sob o ‘nome’ de Henrique Alemão.
Sem querer negar histórias da tradição oral, Élvio Sousa diz que o grande problema de fazer uma investigação tendo por base uma lenda é que, na maior parte dos casos, “as pessoas estão de tal forma imbuídas na história que, quando encontram qualquer vestígio, não conseguem separar o que é ciência e o que muitas vezes já pode ser fantasia…”.
Mas vai mais longe: “hoje em dia, com os meios tecnológicos que existem, é perfeitamente possível fazer uma prospecção, por exemplo nas Selvagens, e ver se existe ou não tesouro. Bastaria um mês, ou um mês e meio, para descerrar a lenda”.
Essa, porém, não consta das suas listas de prioridades. Para Élvio Sousa, os tesouros arqueológicos não se limitam a jóias, a moedas e a lingotes de ouro, como se diz existir nos baús deixados algures pelo Capitão Kidd. A verdade é que, depois de mais de dez anos de dedicação à arqueologia, Élvio não consegue dizer qual o achado mais importante. “São tantos…. Gosto de vê-los em conjunto”, confessa. Mesmo assim, admite que tem uma certa predilecção pelos tostões de prata encontrado na Alfândega de Machico…
E quando perguntamos sobre a descoberta mais desejada, Élvio Sousa não sabe o que responder. Admite já ter passado a fase de sonhar com a descoberta de um tesouro, o do Capitão Kidd ou de outro qualquer que ande escondido por aí, mas há outros ‘potes cheios de moedas’ ainda por descobrir. Tudo porque a Arqueologia “é um mundo fabuloso, muito entusiasmante. Temos é de ter um bom discurso para passar isso para os outros, porque todos os dias se perde pedaços da História da Madeira”. E para preservar, não é necessário que sejamos arqueólogos. Basta estarmos sensibilizados para a importância daquilo que às vezes pode parecer um simples ‘caco’ ou uma moeda de outras eras.”
Texto de Ana Luísa Correia e Fotos Teresa Gonçalves . Revista MAIS – Diário de Notícias, Domingo, 20 de Novembro de 2011.